Aprendi nas aulas de Geografia que a Terra não é redonda como, de forma simplificada, acreditamos que seja. Ela é geóide. Em formato de Terra. Ou seja, a Terra tem o formato que só a Terra tem.
Único. Exclusivo. Com seus picos e seus vales. Suas áreas azuis, mas também as escuras. As bem poucas de clima agradável e as muitas de calor e frio insuportáveis. Quando muito, 12 horas de luz. E 12 de escuridão.
Assim é nossa vida. Com altos e baixos. Luzes e trevas. Nem redonda, nem plana, muito menos linear.
Se nem escolhemos onde, nem de quem, nem quando nascemos, fatores tão determinantes de nossas estórias, o que nos faz crer que o que viria e virá depois estaria e estará menos fora de nosso controle?
Conheci minha esposa, depois de um ano, trabalhando no mesmo prédio. Ela no 6o. andar. Eu no 5o. Na mesma empresa! Casamos em 11 meses. Ela engravidou em 6. Nossa filha se chamaria Rebeca. Nasceu primeiro o Gabriel. Pela Rebeca esperamos mais 4 anos. Fugiu de longe de nossos planos. Mesmo assim, como poderia deixar de amá-los profundamente, cada um no seu tempo, cada um do seu jeito, idade, temperamento.
Como antever com quem nos casaremos e por quanto tempo permaneceremos casados? Onde vamos trabalhar? Quando seremos demitidos, promovidos? Quando virá a doença? E de volta a saúde?
Alguns dirão que a coisa não é assim tão fora de nosso controle. Fazer as coisas certas trará sempre bons resultados. As erradas, os maus. Concordo. Mas só parcialmente.
Como aprendi com meu pai, se fizermos tudo certo, ainda assim algo pode dar errado. Se fizermos tudo errado, raramente dá certo. Mas dá. Dá errado. Dá certo.
Nem sempre o melhor time vence a Copa. O juiz anula o gol válido e valida o de mão. Nem sempre melhor corredor ganha a medalha. O padre escocês atrapalha. Mas nem assim ele desiste. Chega em terceiro. E comemora.
De meu pai é também outra lição. Há filho de malandro que dá para gente de bem, filho de gente de bem que dá para malandro. Ou como disse Helen Keller, não há rei que não descenda de um escravo e não há escrevo que não descenda de um rei.
Picos e vales. Alegrias e tristezas. Sempre uma novidade. O email chega. A carta chega. O telefone toca. E tudo, tudo pode mudar.
Você chega em casa. As suas malas estão esperando por você na porta. Ela cansou de pedir para você dedicar mais tempo para sua família. Ela resolveu dedicar mais tempo para ela e para seus filhos. E você ficou de fora dos novos planos dela.
Você poupou. Ajuntou. Planejou seu pecúlio. Sua aposentadoria antecipada. Tranqüilidade para o resto da vida. Verdade. Conseguiu. Mas o resto da vida dura só 6 meses. Você gastou a saúde para comprar sucesso. Pecúlio. Dinheiro para o resto da vida. 6 meses. 60 meses. 6 anos.
E a polpuda poupança talvez fique para um cunhado, para um sobrinho que nunca te ligou no dia do seu aniversário, ou para um filho que só vai aprender como se ganha dinheiro fácil e jamais a poupar.
Há quem se fie em estatísticas e probabilidades. Entendo muito pouco delas. Mas há algo nelas que compreendo menos ainda. Dizem que só cai um avião em cada 1 milhão de vôos. Legal. Mas caí. E quando estamos nele, ou nosso amigo, nosso conhecido, nosso ente querido. Caímos com ele. Aí não é mais probabilidade, é fato. Não é mais 1 em 1 milhão. É 100% que se foi. Como declarou Fernando Sabino ao perder seu amigo Hélio Pelingrino “com ele morreu o melhor de mim”.
Qual a probabilidade de uma senhora de 80 anos ser atropelada quando por 80 anos ela nunca foi? Mas é. Para ela pouco vai importar as estatísticas. Não será a chance de 1 em 1 milhão. Simplesmente terá sido.
Hoje lanchava num shopping em Santiago do Chile. Na verdade, tomava apenas um suco de laranja para fazer hora esperando a chegada da minha esposa. De repente, pum. Algo explode em uma lixeira a pouco mais de 5 metros de mim. Nenhum estilhaço, só um grande susto.
A mente corre e me lembro que seja talvez fruto de incidentes recentes com a prisão suspeitos de atentados a bombas de 14 meses atrás. Que pode não ter sido apenas a brincadeira estúpida de quem pensa não haver nada de melhor para fazer na vida.
Mais um explosão. Agora no andar de baixo. Tento manter a calma, mas o instinto de sobrevivência manda racionalizar menos e raciocinar mais. Não é hora de avaliar a potência do artefatos, é hora de cair fora dali. Pouco antes de cruzar a porta do shopping ouço mais explosão, agora numa lata de lixo na calçada.
Três explosões. A vida é assim. Três explosões. A viagem de lazer, podia se transformar em tragédia. A alegria em pranto.
Mas há saída. Mas só uma. É não acreditar em nossos planos infalíveis. No deixar para depois. Para um dia. Para aqueeeeele dia.
A saída é pedir o perdão que ainda não pedimos, é comer o quindim que olhou para nós sem medo das suas 500 calorias, é deixar o trabalho mais cedo para pegar nosso filho na escola, é beijar a esposa sempre como se sempre fosse a primeira e a única vez.
É não programar cada passo da vida antes de dá-lo, mas sentir cada passo que se dá quando se der cada passo. É lembrar menos do passado, depositar menos esperança no futuro e viver mais o presente nos presentes que o presente nos traz.
É desligar o celular enquanto seu melhor amigo está na sua frente. É desligar a televisão na hora do jantar. É saborear a pizza do sábado, o pastel da quinta e o café da manhã a cada nova manhã.
É acreditar menos na infalibilidade dos nossos planos, nos gráficos, nas planilhas e encarar o fato, meu querido, amigo, que a nossa vida, não nem é redondinha, nem é plana, mas que se a gente prestar um pouco mais de atenção ela pode, muito bem, ficar um pouco mais azul.
Eduardo Cupaiolo é Mentor de vida e carreira do The Coaching Office e People matters advisor da PeopleSide.
Fale com ele em: ecupaiolo@thecoachingoffice.com.br ou cupaiolo@peopleside.com.br
22 Comments
Obrigado por suas palavras. Elas me fazem lembrar Quem continua no controle de TUDO!!!
Simplesmente ótimo ! Postado em meu twitter …
“tudo que se recebe é do tamanho da nossa necessidade”, hoje você me ajudou exatamente naquilo que eu precisava.Obrigada!
Eduardo,
Sabios comentarios, que o nosso DEUS continue te abençoando grandemente,sem dúvida, o que acontece conosco,com nossos irmãos, com nossos amigos é 100% (estatistica).
Eduardo, fantástica reflexão. Emocionante no final, parabéns.
Dante
Amigo Edu, li e gostei!… realmente um plano só é bom ou ruim depois que dá certo ou errado. Abraço,
p.s: apesar das bombas, mande as dicas captadas em Santiago.
adorei, Edu, muito bom mesmo. abraço Marilia
Edu, brilhante as usual.
Tchê…vou deixar prá lá os conselhos do meu cardiologista e vou jantar na churrascaria com um bom amigo. Claro que vou tomar um comprimido de losartana potássica antes…
Caro Eduardo
Excelente, mais uma vez parabéns e obrigado!
Momento de sabedoria é acrediar em nossa “inspiração” e coloca-lá em prática,
caro sábio Eduardo Cupaiolo
Eduardo,
Alem de ver, voce se preocupa em compartilhar a visao. Obrigado.
Edu,
Obrigado por compartilhar!
Abração,
Edson
George – ou seria Edu?
Belas palavras – e não apenas belas. Sempre digo que, dentre todos os livros da Bíblia, o de Eclesiastes é o mais perturbador. Mais que o Apocalipse. Mais que o Gênesis. Mais. E é um livro para iniciados.
Acho que você, hoje, de um modo bastante elegante, nos deu um pouco de luz sobre este famigerado livro. Em algumas boas palavras e reflexões, colocou coisas em seus devidos lugares. Coisas que, como no Eclesiastes, às vezes temos medos de encarar, por mais que as saibamos. Coisas importantes. Saber que nosso parco destino repousa nas mãos de Deus. Repousa totalmente. Não 99,999%. Mas 100,00000000%. É isso. Ele é “o” cara, e não nós.
Obrigado, amigão, por nos lembrar disso – e lembrar de que não custa nada fazermos algo a respeito.
Muitos abraços…
Edu,
Quem somos nós para termos controle sôbre tudo e todos?
Temos que viver orientados pelos nossos princípios e valores, ouvindo a voz do coração, sem medo da felicidade, em paz.
Parabéns pelo texto.
Abraço.
Fernando.
Fez-me refletir e ponderar o seguinte:
“Pessoas que circulam sua energia são mais felizes e realizadas em suas vidas. Pessoas (energéticas, em especial) podem ser “possibilidades” para outras: escolher a uma ou a outra pode fazer toda a diferença no desenrolar de todos os acontecimentos futuros do palco real da vida de ambas – isto representa uma enorme responsabilidade: poder ser uma “possibilidade” para outrem e, com isto, modificar completamente um destino, uma vida, uma eternidade…”
abraço,
Lubashivaya.-
_/|\_
Brilhante o texto.
A vida é fazer o melhor hoje,quando for dormir agradecer o recebido, projetar o que se deseja. Ao acordar como se nascesse de novo , vibrar a cada passo para que este seja o melhor dia de sua vida.Sempre!!!
Palavras quando são escritas diretamente do coração para as mãos dificilmente deixam escapar a emoção e a sinceridade.
Isto nos falta nos dias de hoje, deixa que nossas consciências nos guiem. Planejamos projetos, reuniões, férias e até idas as academias. Esquecemos que nossos ancestrais deixam a vida acontecer e fazim parte do curso natural, sem se preocupar em mudar. E para que tentar mudar? Para ganhar gastrites, quilos a mais, noites mal-durmidas?
É importante agir e saber agir, tentar melhorar. Mas ao tentarmos ter o controle-remoto de nossas (e de outras pessoas), passamos a nos martirizar e nos prender dentro de corpo que sabe no fundo que podemos conseguir, mas na verdade não devíamos.
Valeu Edu, espero que tenha sido somente o susto e que sirva para alimentar rodadas de chopp entre os amigos no rol das histórias inusitadas.
Abraços
Eduardo
Belas palabras! Muito bem colocadas!
Fazem-nos pensar. Fazem-nos refletir.
Cabe a cada um mover-se…
Um forte abraço.
Edu, parabens. Gostei, e tem tudo haver com que falou um dos homens mais sábios da terra: Salomão: no seu famoso livro de Eclesiastes cap. 9 -
2-Tudo sucede igualmente a todos; o mesmo sucede ao justo e ao ímpio, ao bom e ao puro, como ao impuro; assim ao que sacrifica como ao que não sacrifica; assim ao bom como ao pecador; ao que jura como ao que teme o juramento.
3 Este é o mal que há entre tudo quanto se faz debaixo do sol; a todos sucede o mesmo; e que também o coração dos filhos dos homens está cheio de maldade, e que há desvarios no seu coração enquanto vivem, e depois se vão aos mortos
10 Tudo quanto te vier à mão para fazer, faze-o conforme as tuas forças, porque na sepultura, para onde tu vais, não há obra nem projeto, nem conhecimento, nem sabedoria alguma.
11 Voltei-me, e vi debaixo do sol que não é dos ligeiros a carreira, nem dos fortes a batalha, nem tampouco dos sábios o pão, nem tampouco dos prudentes as riquezas, nem tampouco dos entendidos o favor, mas que o tempo e a oportunidade ocorrem a todos.
12 Que também o homem não sabe o seu tempo; assim como os peixes que se pescam com a rede maligna, e como os passarinhos que se prendem com o laço, assim se enlaçam também os filhos dos homens no mau tempo, quando cai de repente sobre eles.
13 Também vi esta sabedoria debaixo do sol, que para mim foi grande:
14 Houve uma pequena cidade em que havia poucos homens, e veio contra ela um grande rei, e a cercou e levantou contra ela grandes baluartes;
15 E encontrou-se nela um sábio pobre, que livrou aquela cidade pela sua sabedoria, e ninguém se lembrava daquele pobre homem.
16 Então disse eu: Melhor é a sabedoria do que a força, ainda que a sabedoria do pobre foi desprezada, e as suas palavras não foram ouvidas.
OBRIGADO
Suas palavras vieram em um momento oportuno, suas palavras me cairam como um grito de Deus, dizendo: Pare!
Sou “EU” quem controlo tudo.
MUITO OBRIGADO POR ME ALERTAR!
Edu,
Lindo texto!!!
Muito bom pois nos faz refletir.
Beijos.
Caro Eduardo
Delicioso reencontrá-lo por meio deste texto encantador e tocante. Um abraço com saudade e admiração.
Tio Eduardo, deveria ter postado comentário muito antes. Mas receio que um texto como esse deve ser comentado nas minhas ações diárias e durante meu temnpo nesta terra, pois é uma palavra rica e completa. Entretanto eu agradeço pelo ensinamento e sabedoria compartilhada comigo de bom grado, e principalmente com inteligência, equilíbrio e amor.
Grande abraço.
Guga