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Desta vez, Ana Rita nem piscou. Somos amigos há muito tempo, já está acostumada com minhas esquisitices. Há alguns meses ela assumiu a diretoria de RH de uma grande multinacional. Quando me convida para almoçar, descascamos juntos seus maiores abacaxis.


Da primeira vez, foi a letargia da organização.Comissões, comitês e conference calls se multiplicando como hamsters, mas decisão mesmo, nada. Recomendei contratar preguiçosos.

 

Não o tipo padrão – aguardando o mundo acabar em barranco para morrerem encostados -, mas um tipo especial deles. Gente inconformada com conformismo. Alérgicos à reuniões. Sem paciência com indecisão. Avessos a perder tempo útil com atividade inútil, repetitiva. Fazedores de mais com menos, como os grandes inventores: da roda à escada rolante, do aqueduto à vacina contra a pólio.

 

Meses depois, novo convite e novo desafio. Contratar preguiçosos tinha dado certo. A empresa crescera, conquistara novos contratos e precisava de novos gestores. Muitos candidatos apareceram. Muito bons, inclusive, mas nunca atendiam às expectativas da empresa. Recomendei contratar incompetentes.

 

A idéia não era minha. De Peter Drucker. Segundo quem somos todos incompetentes universais. Sabemos, no máximo, muito sobre muito pouco. Daí, melhor buscarmos apenas quem domine seu campo de atuação, não todos. Superman, afinal, só um. Clark Kent. E ele já tem emprego.

 

Novo almoço e o problema mais sério de todos. Preguiçosos tinham revolucionado a organização, incompetentes consolidado o crescimento, mas faltava algo.

 

- Contrate amadores – sugeri.

 

Por quê? Falemos do fiasco da seleção na Copa 2006, pois mesmo sendo assunto que se prefira esquecer, como ensinou George Santayana, não lembrar o passado é estar condenado a repetí-lo.

 

Tínhamos tudo para vencer. Ou quase tudo. Profissionais altamente qualificados. Grandes estrelas. Celebridades com polpudos contratos para jogar em seus times – e de publicidade para vender de avião a estilingue. Mas nesse dream team, assim como na equipe da Ana Rita, faltavam amadores.

 

Em dois sentidos. No primeiro, amador por que ama. Aquilo que faz e por quê faz. Profissional e competente, sim, mas também apaixonado por um ideal maior. Como Luther King sonhando com uma nação em que caráter, não cor da pele, fosse o mais importante ou Gandhi vislumbrando sua Índia livre e unida.

 

Avalie comigo, entre dois competentes cirurgiões. Um só isto, competente. E altamente profissional. Com uma mente profissional. Um coração profissional. E outro apaixonado por aquilo que faz. Qual você escolheria para operar sua filha? Sua mãe? Em quem confiaria mais, na frieza do profissional-só-profissional, ou no calor, na empatia, na paixão do amador?

 

No segundo sentido, amador, porque exerce suas atividades profissionais como lidamos com nossos hobbies: pelo prazer da realização: com foco no “durante” em vez de no “o que eu vou ganhar com isto”.

 

Contratar amadores é construir uma equipe por razões superiores. Começando por descobrir qual a razão pela qual fazemos aquilo que fazemos aqui, como isto contribui para a construção de um mundo melhor. Depois, comunicando essa razão de uma forma clara para que nossos colaboradores possam se apaixonar por ela.

 

É, também, encontrar outras pessoas que tenham vínculo existencial com esta visão e contratá-las. É, enfim, ter as pessoas certas, nos lugares certos e pelas razões certas. Por isto, se está faltando algo em sua organização: contrate amadores!

 

Eduardo Cupaiolo é Mentor de vida e carreira do The Coaching Office e People matters advisor da PeopleSide.
Fale com ele em: ecupaiolo@thecoachingoffice.com.br ou cupaiolo@peopleside.com.br

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One Comment

    • Anderson Nishiyama
    • Posted Tuesday, January 5, 2010 at 14:57
    • Permalink

    SIMPLESMENTE FANTÁSTICO!


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